
Outro dia me chamou a atenção um número: R$ 525 bilhões. Esse é o valor anunciado pelo governo para a agricultura empresarial no Plano Safra 2026/27. Mais de meio trilhão de reais. Quando a gente olha assim, a primeira impressão é boa. Afinal, estamos falando de mais dinheiro para financiar o campo.
Mas aí fiquei pensando numa coisa: se o Plano Safra aumentou, por que tenho ouvido tantos produtores reclamarem justamente da dificuldade de conseguir crédito? E por que, nesse mesmo período, continuamos assistindo ao crescimento dos pedidos de recuperação judicial no agro? Tem alguma coisa nessa conta que merece ser olhada com mais calma.
Comecei pelo próprio Plano Safra. No ciclo anterior eram R$ 516,2 bilhões. Agora são R$ 525,1 bilhões. Quase R$ 9 bilhões a mais e, dito dessa maneira, parece um aumento considerável. Só que estamos falando de um crescimento nominal de apenas 1,7%. Quando colocamos a inflação nessa conversa, o resultado muda: tomando como referência o IPCA acumulado em 12 meses até junho, de 4,64%, a variação real fica em aproximadamente -2,8%. Em outras palavras, em termos reais, houve redução.
O número aumentou. O dinheiro, em termos reais, não.
Mas, quando comecei a olhar um pouco mais para dentro dessa história, encontrei outra mudança que considero ainda mais importante. Em Mato Grosso, levantamento do Imea sobre o custeio da soja mostra que os recursos oficiais federais representavam 8,66% do funding na safra 2024/25. Na safra seguinte, essa participação caiu para 5,07%. No mesmo período, a participação do sistema financeiro passou de 30,38% para 35,42%, e a das multinacionais e tradings, de 28,85% para 30,74%. É um retrato claro de como outras fontes vêm ocupando espaço no financiamento da produção. Fonte: Imea,Funding Soja 2025.
E é aqui que essa conversa começa a ficar interessante, porque uma coisa é o governo anunciar crédito e outra, bem diferente, é alguém decidir colocar dinheiro na sua mão. Banco, trading, fundo ou fornecedor não olha apenas para a quantidade de soja que você produz. Quer conhecer suas dívidas, seu caixa, suas garantias, seu histórico e, principalmente, sua capacidade de pagar aquilo que está tomando.
Isso ajuda a entender outro número. Somente no primeiro trimestre de 2026 foram registrados 474 pedidos de recuperação judicial no agronegócio brasileiro, contra 389 no mesmo período de 2025, um crescimento de 21,9%. Mato Grosso liderou o país, com 135 pedidos. Fonte: Serasa Experian
Agora pense comigo: se você empresta dinheiro e começa a perceber que no setor aumentaram as dificuldades de pagamento, os pedidos de recuperação judicial e as ações buscando a prorrogação das dívidas, o que você faz? Provavelmente ficará mais cuidadoso antes de emprestar novamente. Vai querer conhecer melhor quem está pedindo, talvez exigir mais garantias, diminuir sua exposição ou simplesmente colocar esse risco no preço. Banco também faz conta. E seria estranho imaginar que todo esse movimento não tivesse consequência sobre a disponibilidade e o custo do crédito.
Isso não significa dizer que recuperação judicial ou prorrogação de dívida não devam existir. Há situações em que esses instrumentos são juridicamente adequados e até necessários. O problema é começar a tratá-los como soluções financeiras comuns, como se a decisão de hoje não produzisse nenhum efeito sobre a relação de crédito de amanhã. O próprio Ministério da Agricultura já manifestou preocupação com os possíveis impactos da judicialização sobre o risco bancário e as taxas de juros do setor. Fonte: CNJ, a partir de manifestação do MAPA.
E faço aqui uma distinção que considero importante. Prorrogação judicial não é renegociação. Na renegociação, credor e devedor sentam à mesa e constroem novas condições para aquela obrigação. Na prorrogação judicial, busca-se no Judiciário o reconhecimento de um direito que pode alterar as condições da dívida independentemente da concordância do credor. As duas podem enfrentar um problema imediato, mas percorrem caminhos completamente diferentes.
Há ainda uma questão que me preocupa. Quando esse movimento cresce no setor, a conta não necessariamente fica restrita a quem pediu recuperação judicial ou buscou a prorrogação. Se a percepção de risco sobre a atividade aumenta, o crédito tende a ficar mais seletivo. E talvez quem sinta isso primeiro seja justamente o pequeno e o médio produtor.
Não porque produzam pior. Muitas vezes conhecem a própria atividade como pouca gente. O problema é que um grande grupo normalmente dispõe de departamento financeiro, jurídico, planejamento, controles e diferentes portas onde buscar recursos. Já o produtor menor precisa tomar decisões financeiras igualmente complexas com uma estrutura administrativa muito mais enxuta.
O crédito rural está mudando justamente nessa direção. Além do crédito oficial, entram cada vez mais na conversa bancos, CPRs, barter, tradings, fornecedores e outras estruturas privadas. Cada uma tem custo, prazo, garantias e consequências diferentes. Produzir bem continua sendo fundamental, mas talvez já não seja suficiente. Será cada vez mais necessário saber administrar o dinheiro que torna essa produção possível.
Quem trabalha com empresas em dificuldade acaba aprendendo que a dívida que chega à mesa raramente conta a história inteira. Antes dela normalmente vieram decisões, financiamentos, garantias, margens que diminuíram e um caixa que, em algum momento, deixou de acompanhar os compromissos assumidos. Por isso, conseguir crédito é apenas uma parte da decisão. A outra talvez seja mais importante: será que esse crédito cabe no seu bolso?
Conseguir crédito é apenas uma parte da decisão. A outra é saber se esse crédito cabe no seu bolso.
Então volto aos R$ 525 bilhões do começo da nossa conversa. O valor existe. Mas talvez essa não seja mais a pergunta principal. Precisamos saber quanto desse dinheiro efetivamente chegará ao produtor, quem terá condições de acessá-lo, a que preço e com quais garantias.
Porque, no fim das contas, crédito não é apenas dinheiro. É confiança.
Fontes: MAPA e IBGE
Eduardo Mello- Advogado, negociador e especialista em reestruturação empresarial.
Instagram: @adv_eduardomello
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