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Um país que precisa enterrar suas filhas por assassinato não pode dormir em paz'

Em 2024, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime e ONU Mulheres, 83 mil mulheres e meninas foram mortas intencionalmente; dessas, 50 mil — ou 60% — foram assassinadas por parceiros íntimos ou familiares.

09/12/2025 às 15h02
Por: Redação Fonte: Marisa Batalha
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Da assessoria
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Ao encerrarmos os 21 dias de ativismo pelo fim da violência contra mulheres e meninas nesta quarta-feira, 10 de dezembro, precisamos transformar o que foi mobilização em continuidade, responsabilidade institucional e ação política efetiva. Pois o Brasil segue enfrentando um cenário grave e persistente de violência de gênero que exige, hoje, de forma concomitante, campanhas de sensibilização, mas com a presença do Estado, na integração de políticas públicas e com o comprometimento de todas as esferas de poder. 

A cada ano, novos números revelam a dimensão da tragédia. De acordo com o DataSenado, 3,7 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica ou familiar em 2025. Entre elas, 71% relataram que havia crianças presentes durante as agressões, muitas vezes seus próprios filhos, evidenciando que a violência repercute para além das vítimas diretas e atinge estruturas inteiras de convivência familiar. 

Em 2024, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime e ONU Mulheres, 83 mil mulheres e meninas foram mortas intencionalmente; dessas, 50 mil — ou 60% — foram assassinadas por parceiros íntimos ou familiares. Uma realidade devastadora que coloca a cada 10 minutos uma mulher ou menina sendo morta pelo próprio companheiro ou por alguém com quem mantinha laços de afeto, cuidado ou convivência. 

No Brasil, a violência letal contra mulheres continua como um de nossos maiores desafios. E Mato Grosso segue, pelo segundo ano consecutivo, liderando o ranking proporcional de feminicídios no país. Já acumulando em novembro, 51 casos, superando os 47 registrados ao longo de todo o ano anterior. Só em junho, dez mulheres foram mortas dentro de suas casas — exatamente onde deveriam estar protegidas. 

Embora seja doloroso aceitar esses números, é possível observar avanços importantes na campanha dos 21 dias de ativismo, pois ela trouxe mais força às discussões e ampliou o entendimento sobre crimes  antes invisibilizados, como a violência digital e a violência política de gênero. 

Igualmente, fortaleceu o diálogo interseccional, ao cristalizar o início da mobilização pelo Dia da Consciência Negra, reafirmando a vulnerabilidade específica das mulheres negras, que seguem entre as maiores vítimas de feminicídio no país. Ainda reconhecendo o esforço notável de engajar o homem nestes debates, inclusive, com a celebração da mobilização masculina em 6 de dezembro, na campanha Laço Branco, reforçando a importância da mudança cultural. 

No entanto, é preciso admitir que campanhas, embora fundamentais, não produzem mudança estrutural sozinhas. Elas iluminam o problema, mas não bastam para solucioná-lo. Os canais de denúncia, como o Ligue 180, seguem sendo fortalecidos e divulgados, e a sociedade civil, junto às instituições públicas, tem se mobilizado com mais intensidade. Ainda assim, o desafio continua gigantesco em um país que convive historicamente com a misoginia, a violência naturalizada e a ideia de que corpos femininos são controláveis, descartáveis ou subalternizados.

Como mulher, advogada e deputada federal, líder da bancada feminina do União Brasil e vice-presidente do maior bloco da Câmara — formado por oito partidos e 363 deputados — sei que a nossa responsabilidade é imensa. Também sei que a legislação brasileira avançou graças à pressão da sociedade e ao empenho de mulheres e homens comprometidos com essa causa. Foi assim com a Lei Maria da Penha. Foi assim com a Lei do Feminicídio, da qual tive a honra de ser relatora na Câmara Federal. 

Mas ainda não é suficiente, pois a  violência estranhamente evolui, muda de forma, se infiltra em novos espaços — físicos, virtuais, simbólicos. E o Estado precisa acompanhá-la, preveni-la e combatê-la de maneira ágil e eficiente. Desvelando que a proteção às mulheres exige políticas públicas permanentes, orçamento, equipes treinadas, abrigos, programas de autonomia econômica, atendimento psicológico, acolhimento humanizado, integração das redes e responsabilização célere dos agressores. 

Sobretudo, exige que novas gerações cresçam livres de estigmas de gênero e compreendam que violência não é conflito doméstico, não é erro de percurso: é crime. E crime deve ser enfrentado com a firmeza de quem protege a vida. 

Assim, ao final desta campanha, fica uma certeza: não falamos apenas de números, mas de pessoas com nome, rosto, história, afeto e projetos interrompidos. Falamos de mães, filhas, irmãs, amigas, vizinhas que tiveram suas vidas ceifadas. Por isso, reafirmo meu compromisso de seguir aprimorando legislações e unida à organizações e movimentos que lutam para que a violência não se naturalize como o destino da mulher, e que nossa vida seja um direito.

Gisela Simona é advogada e deputada federal

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