
Eduardo Mello
Advogado, negociador e especialista em reestruturação empresarial
Passada uma das eleições presidenciais mais polarizadas dos últimos tempos, o Brasil retoma sua rotina. Parte da população comemora o resultado, outra parte manifesta preocupação, e todos, independentemente de suas preferências, continuarão convivendo com as decisões daqueles que foram eleitos. Mas, depois de tantas discussões sobre candidatos, partidos e promessas, talvez valha a pena dedicar alguns minutos a uma questão que costuma receber menos atenção: o que esperamos de nossos representantes políticos e qual é, afinal, a nossa participação na construção do país que desejamos?
Imagine um comerciante que investiu na reforma de sua loja. Modernizou as instalações, instalou ar-condicionado, treinou os funcionários, melhorou o atendimento e organizou a gestão. Fez aquilo que estava ao seu alcance para tornar o negócio mais competitivo. Entretanto, quando o consumidor chega à região, encontra calçadas deterioradas, iluminação insuficiente, dificuldades de estacionamento e ruas que pouco convidam as pessoas a circular. O empresário cuidou do estabelecimento, mas será que a experiência do cliente começa somente depois que ele atravessa a porta?
Agora, vamos sair da cidade e pensar no campo. Um produtor rural investe em tecnologia, máquinas, qualificação de pessoal e produtividade. Planeja o plantio, administra riscos e procura melhorar seus resultados. Mas, quando chega o momento de transportar a produção, encontra estradas inadequadas, custos logísticos elevados e limitações de infraestrutura. O esforço realizado dentro da propriedade continua dependendo de condições que estão além de suas cercas.
São atividades diferentes, com desafios próprios, mas existe algo em comum: nenhuma empresa funciona isolada do ambiente em que está inserida. O comerciante pode cuidar de sua vitrine, assim como o produtor pode cuidar de sua lavoura. Entretanto, aquilo que acontece do portão para fora também interfere no resultado do trabalho realizado do portão para dentro.
É natural que, diante desses problemas, se cobre uma solução do poder público. E deve ser assim. Prefeitos, governadores, parlamentares e presidente da República recebem atribuições, recursos e responsabilidades para administrar interesses coletivos, cada qual dentro de suas competências. Não foram eleitos para receber homenagens ou simplesmente ocupar cargos. Foram escolhidos para exercer funções públicas, tomar decisões e responder por elas.
Mas existe uma questão que merece reflexão. Durante as eleições, dedicamos enorme energia à escolha de quem irá governar. Discutimos personalidades, discursos e promessas, muitas vezes com uma paixão que ultrapassa o debate de ideias. Depois da votação, porém, será que continuamos acompanhando com a mesma intensidade as decisões que efetivamente moldam nossa vida e nossos negócios?
Pense novamente naquele comerciante. Se outros estabelecimentos da mesma região enfrentam dificuldades semelhantes, o problema deixa de ser exclusivamente individual. E se, em vez de cada empresário esperar isoladamente por uma providência da Prefeitura, a associação comercial reunisse seus associados, identificasse prioridades e construísse uma proposta de melhoria para a região? O poder público continuaria responsável pelas obras e serviços, mas encontraria uma sociedade organizada, capaz de apresentar demandas consistentes, participar das discussões e acompanhar os resultados.
Uma cidade mais limpa, arborizada, acessível e segura não beneficia apenas o comércio. Melhora a vida de quem caminha pelas ruas, utiliza o transporte público, trabalha, estuda ou simplesmente deseja aproveitar os espaços da cidade. A melhoria do ambiente de negócios, nesse caso, não é um privilégio concedido ao empresário. É uma consequência possível de decisões que atendem a interesses mais amplos.
E o que acontece quando ampliamos esse raciocínio para Mato Grosso? O agronegócio oferece uma experiência relevante de organização setorial. Produtores e entidades representativas participam de discussões sobre infraestrutura, crédito, legislação e políticas públicas que influenciam suas atividades. Isso não significa que suas posições sejam sempre corretas ou que todos os interesses estejam automaticamente alinhados. Significa reconhecer que a atuação organizada permite levar problemas e propostas a espaços onde decisões importantes são tomadas.
O mesmo princípio pode ser observado no comércio, na indústria e nos serviços. Cada setor possui necessidades particulares, mas todos dependem, em alguma medida, da qualidade da educação, da segurança, da infraestrutura, da administração pública e das regras que orientam a atividade econômica. O desafio está em transformar interesses legítimos, muitas vezes dispersos, em propostas capazes de produzir benefícios que ultrapassem os limites de uma empresa ou de um segmento.
E se ampliarmos ainda mais nosso olhar? Aquilo que começa numa calçada municipal pode nos ajudar a compreender problemas de escala estadual e nacional. Uma rodovia, uma ferrovia, uma política educacional ou uma legislação que ofereça maior previsibilidade aos investimentos também influencia o que acontece dentro das empresas. Mudam a dimensão das decisões e as autoridades responsáveis, mas permanece a necessidade de planejamento, participação e acompanhamento.
Talvez seja justamente aí que devamos distinguir a política partidária da participação institucional. Não é necessário concordar com determinado candidato, defender uma sigla ou disputar eleições para contribuir com o desenvolvimento de uma cidade, de um estado ou do país. Participar de uma entidade representativa, discutir prioridades, compreender os interesses envolvidos e acompanhar decisões públicas também são formas de atuação política. E podem continuar existindo muito depois que terminam as campanhas eleitorais.
Há ainda uma questão que raramente recebe a atenção merecida: por que projetos importantes para o desenvolvimento de uma região deveriam depender exclusivamente das preferências de quem ocupa temporariamente o poder? Uma sociedade organizada pode construir prioridades de longo prazo, transformá-las em propostas e instrumentos institucionais e acompanhar sua execução ao longo de diferentes governos. Isso não elimina a autonomia dos eleitos nem suas responsabilidades. Apenas permite que a discussão sobre o futuro não precise recomeçar do zero a cada eleição.
O empresário conhece a importância de planejar, negociar, avaliar riscos e acompanhar resultados. Talvez essas mesmas capacidades possam contribuir, por meio da participação coletiva, para melhorar as condições em que sua atividade se desenvolve. Não se trata de assumir funções que pertencem ao Estado, mas de compreender que cobrar, propor e acompanhar são atitudes que podem caminhar juntas.
Daqui a quatro anos, estaremos novamente diante de candidatos, promessas e disputas. Até lá, os governantes terão a obrigação de demonstrar o que fizeram com os mandatos recebidos. E a sociedade terá a oportunidade de avaliar não apenas as pessoas que escolheu, mas também os projetos que ajudou a construir e os resultados que exigiu.
Afinal, cuidar do que acontece do portão para dentro é indispensável. Mas será que estamos dedicando atenção suficiente ao que acontece do portão para fora?
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