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As empresas que quebram na gestão, não no banco

Muitos empresários ainda enxergam a renegociação como um sinal de fraqueza, o que é um ledo engano. Negociar é simplesmente corrigir o posicionamento das velas quando o vento muda.

21/06/2026 às 09h22
Por: Redação Fonte: Da assessoria
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As empresas que quebram na gestão, não no banco

Eduardo Mello- Advogado e negociador empresarial

Especialista em reestruturação e negociação de dívidas empresariais.

Quando uma empresa entra em crise financeira, o roteiro costuma ser previsível e a culpa é rapidamente terceirizada. Aponta-se o dedo para o banco, para as taxas de juros, para o mercado, para o governo ou para a economia. Contudo, a verdade nua e crua é bem mais dura. A maioria das empresas não quebra por causa da dívida, mas sim porque passou tempo demais ignorando decisões que precisavam ser tomadas. O endividamento, na maior parte das vezes, é apenas a consequência final de problemas que começaram muito antes.

Tudo tem início na gestão desorganizada, na retirada excessiva de dinheiro do caixa para sustentar padrões irreais e na total falta de controle operacional. O cenário se agrava com a ausência de planejamento, a perigosa mistura entre as contas de pessoa física e jurídica, e a expansão sem a estrutura necessária para suportá-la. Há, ainda, a vaidade empresarial, que investe primeiro na aparência e deixa por último o que realmente sustenta o negócio: caixa, gestão e eficiência. O problema central é que muitos empresários ainda administram no improviso, tomando decisões vitais sem informação de qualidade. Eles confundem faturamento com lucro e acreditam que vender muito significa, necessariamente, crescer.

O grande erro, no entanto, é deixar para procurar ajuda apenas quando a pressão já saiu do controle. Nesse momento, o empresário perde o seu maior ativo, que é a liberdade de escolha. Ele já não decide com clareza, mas sim pressionado por fornecedores cobrando, bancos restringindo crédito, uma equipe insegura, um fluxo de caixa comprometido e uma credibilidade completamente desgastada. Existe um detalhe crucial no mundo dos negócios: a crise empresarial raramente aparece de repente. Ela vai dando sinais aos poucos. O caixa piora, a margem de lucro diminui, os conflitos internos aumentam e as decisões passam a ser tomadas no desespero, distantes de qualquer estratégia.

É justamente nesse limite entre a sobrevivência e o colapso que entra a importância da reestruturação empresarial. Reestruturar não significa admitir fracasso, mas sim ter maturidade para entender que as empresas precisam de ajustes antes de chegarem à ruína. Uma reestruturação séria busca identificar as causas reais da crise, analisando a fundo a gestão, a operação, o nível de endividamento, o modelo financeiro, a eficiência, a estrutura societária e a capacidade de geração de resultado. Afinal, uma empresa saudável não é aquela que aparenta ser grande, mas a que consegue sobreviver com organização, previsibilidade e capacidade de adaptação.

Muitos empresários ainda enxergam a renegociação como um sinal de fraqueza, o que é um ledo engano. Negociar é simplesmente corrigir o posicionamento das velas quando o vento muda. Como bem pontuou o físico Stephen Hawking, a inteligência é a capacidade de se adaptar à mudança. Quem procura ajuda profissional no início das dificuldades normalmente possui mais alternativas, maior poder de negociação e chances reais de preservar seu patrimônio, sua operação, sua reputação e o seu legado. Por outro lado, quem demora quase sempre negocia pressionado pela urgência, e a urgência é um dos ambientes mais perigosos para qualquer tomada de decisão.

O empresário moderno precisa entender uma premissa simples: o mercado muda, e isso faz parte do jogo. O problema não é a mudança em si, mas sim quando a empresa não tem estrutura, maturidade e gestão para se adaptar a ela. No fim das contas, o mercado não escolhe vítimas; ele apenas expõe quem não se adapta.

 

 

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